Muito devagarinho,
Descendo a calçada,
A pobre mulher vinha,
Pensativa e amargurada.
Levantou a cabeça,
Olhou o casario.
Aconchegou o casaco,
Achava-se com frio.
E a outra que a viu,
A porta da casa abriu
E a inquiriu:
-É comigo que quer falar?
-É isso mesmo,
Só não sabia qual a casa,
Estava a pensar.
E sempre devagar,
Não fosse ela cair
Ou escorregar,
À porta se chegou.
E antes do recado
A que viera,
Muito baixinho segredou:
- Sabe, sabe,não diga nada.
Se o meu marido sabe,
Estou metida numa alhada!
-Não tem problema,
Esteja descansada.
Sou boa ouvinte,
Jamais direi nada.
E desabafou!
Contou, sempre em sussurro,
Cenas de uma vida atribulada.
Casara tarde,
Porém, o casamento
Jamais a encantara.
-Se fosse hoje...
Achava-se doente,
E se se queixava,
O marido ignorava
E, ironicamente, respondia:
-Tu, tu não tens nada!
Mas ele, estando mais mal,
Ia ao doutor,
Bastava um pequeno sinal.
E muito mais disse,
Sempre com medo
Que o marido desconfiado
A visse a conversar.
Num repente,
Achou-se com pressa.
E foi-se embora,
Não, sem antes
Voltar a recomendar:
-Não diga nada.
Se ele me perguntar
O que estava a fazer,
Eu digo:
-Foi o troco,
As contas do troco
Que lhe fiquei a dever. 05/2007
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Este poema é sobre um facto da vida que aconteceu comigo, aliás todos os meus poemas reflectem a minha vivência
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